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domingo, 9 de junho de 2013

A gula das Elites

“Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular”

                “Para se fazer omeletes é preciso quebrar ovos” dissera o representante do governo em audiência pública realizada o dia 06/09/2012 a respeito do projeto de devastação do pouco que nos restou da mata nativa da cidade de Natal. Bastou esse discurso medíocre que o Estado tinha a dar para os potiguares ali presentes para que uma preocupação invadisse minha mente.
                As elites estão mais uma vez famintas, ou melhor, parece-me que elas nunca se saciaram, e pior, omeletes nunca foram suficientes para acalmar essa fome devastadora. No passado, fome das elites, nações indígenas foram massacradas e dizimadas, negros e negras foram sequestrados de suas terras e obrigados a trabalhar para sustentar aquela elite faminta; para alimentá-la, as nossas matas foram derrubadas e nossas terras usurpadas. Por conta da fome da nossa (e de outras) elite lutadores e lutadoras do povo foram mortos e chamados de vilões.
                E ainda instigados pela gula, elas expulsam os pobres de suas casas, massacram a população negra nas periferias, sucateiam os serviços públicos. É em nome dessa fome maléfica, e para que elas continuem comendo, que se constroem estádios e aeroportos além da capacidade local, que se aumenta passagem de ônibus e que se reprimem movimentos sociais.
                Falta ao governo perceber que não são apenas elas que tem fome. Nós, moradores e moradoras da cidade de Natal também sentimos fome. E a nossa fome vai além de carros, concretos e dinheiro; Muito mais além de futebol, estádio e aeroportos. O que realmente nos incomoda é o sistema público de saúde, que, no lugar de curar, faz vítimas diariamente, o salário baixíssimo dos professores em nossa rede pública, o sucateamento do transporte público, a violação de Direitos Humanos a que muitos potiguares são submetidos no campo, em presídios e na nossa periferia. Nossa fome é por democracia, por concretização de direitos, por alimentos, por participação popular, por um meio-ambiente saudável.
                E agora o governo do Estado do Rio Grande do Norte quer gastar R$ 200 milhões em uma omelete, não contente com o preço exorbitante do projeto, quer usar como tempero 35.048,43 m² de mata atlântica. Ficou claro a todos os presentes naquela audiência pública que o projeto da Roberto Freire é mais uma iguaria para alimentar as nossas elites (e outras) gulosas e que o governo não deixou de cozinhar para ela.
                No entanto, agora nós sabemos que temos fome e identificamos bem a causa dela. Nós, homens e mulheres cansados de alimentar essas gordas elites, não deixaremos que nossos ovos sejam quebrados. A gula de vocês não devorará mais nossos pobres nem nosso verde. Porque nós, os famintos, já sabemos bem a cara que a fome tem.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Eu quero e botar meu bloco na rua


“Não ter festa dá a impressão que o mundo ficou sério”

Nada mais triste para uma cidade do que uma população que se esconde em suas casas e o auge de sua diversão é ir para uma boate ou bar, nada mais entediante que a falta de arte e de música nas ruas, nada mais repressor que enclausurar os tambores e os violões aos espaços privados. É quase consensual entre todxs xs natalenses o quão desanimador e insatisfatório é o cenário cultural da capital potiguar.

São as confraternizações coletivas as responsáveis pelas melhores trocas entre xs moradorxs de uma cidade, pelas mais brilhantes criações culturais de um povo. A cidade precisa de um espaço de integração entre seus habitantes, onde não importa raça, cor, nem, principalmente, classe. Quando afirmo que o cenário cultural natalense é insatisfatório me refiro há ausência de música, de dança, enfim, de arte nos espaços públicos (pra mim o local por excelência da arte).

Xs gestorxs públicos dirão de prontidão que esse texto é uma falácia, já que de tempos em tempos tem uns eventos grandiosos que trazem nomes ainda mais grandiosos do cenário musical nacional. Ora, leitorxs amigxs, trata-se de uma tentativa de nos iludir que há um efetivo investimento em cultura, ou estão todxs satisfeitxs com essa política pouco inteligente? Enquanto alguns milhões de cifras são gastos com os grandes eventos, os grupos locais de arte sofrem uma morte lenta e sofrida sem ter sequer um espaço fixo para ensaios.

Com a ausência de uma política pública constante de cultura, a falsa alternativa do privado tenta inutilmente supri-la. A arte a poesia deixa o seu espaço por excelência para ser trancafiada em bares caríssimos e casas. Quando tudo parecia não ter como piorar em Natal eis que inaugurado uma grande cadeia para as artes, um teatro dentro de um shopping, que seleciona minuciosamente quem entra lá para cosumir o produto arte, e quem legitimamente pode produzi-lo, e aproveita para matar aquele outro histórico teatro (como é mesmo o nome?). E ainda tem aquela infeliz história sobre o bar da meladinha, num é que tentaram fechar mais um espaço do povo?

Enquanto isso o espaço público de Natal prossegue sem alma, sem sorrisos, sem musicalidade, e aquele povo sofrido que não tem direito a se expressar nas mais diversas formas na rua, no espaço público, continua usurpado de sua capacidade criativa.

Ah! Mas se essas ruas, mas se essas ruas fossem nossas! Oxente! E não são?

Espero que nasça desse cenário desolador um movimento que questione a essa negação do espaço público como espaço de fazer arte e de confraternização da cidade e aquela lavagem das ruas do centro da cidade que aconteceu na penúltima terça-feira (15/01/12) pensada pelxs organiadorxs do encontro de estudantes de arquitetura em parceria com a Nação Zambêracatu não seja uma atividade pontual, que os grupos que produzem arte existente nessa capital exijam as ruas para apresentar os seus trabalhos, que as festas do Monte do Sol (conjunto Pirangi) e de Felipe Camarão (aquele que contou com a presença de Lia de Itamaracá) contagiem os bairros dessa cidade que tem tantos talentos e ritmos adormecidos e que pipoque um movimento, tal como revolução, de artes e festas do povo, (seria pedir demais que o Teatro Alberto Maranhão virasse cenário para arte do povo?) Aí sim, xs gestorxs públicos (daquelas velhas famílias que parasitam aqueles velhos cargos) assistiriam o a manhã renascer e esbanjar poesia realmente popular.

E que os tambores, cantos, poesias e causos sequestrados para os bares e casas finalmente saiam às ruas em grandes blocos populares nas ruas dessa cidade, seja na periferia, no centro e na tradicional ribeira, como se já fosse carnaval (o ano inteiro).