segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Teus olhos em oceano

Teus olhos, como os de Capitu, arrastam os meus feito ressaca
São frestas que permitem os meus
Nadar no oceano de teus sentimentos
Que no teu olhar se traduzem em segredos

Teus olhos fazem festa com os meus quando os encontram
Os dois pares se enamoram à distância por longos tempos
Sob os sons de um oceano
Até se fecharem em ensaio
A espera do silêncio transgressor do beijo

Teus olhos, que já saíram da janela para ver os sambas das ruas
E já sentirem os tambores do maracatu
Já pintaram em suas retinas paisagens em branco e preto
E degustaram o sal de marés em alegria e tristeza
Trazem amor transbordando nas pálpebras
Trazem trilhas escuras
Nas quais me perco pra fugir do mundo

Teus olhos são cheios de risos
Que mesmo em dias de tempestade
Mesmo quando os mares dentro deles se agitam
Mesmo quando eles se expõem ao mundo em correntes de marés
E quando os oceanos os encharcam
Vê-se por entre a fresta
Uns sorrisos teimosos
Que esses versos anseiam arrancar...


Entre blusas e democracias: Considerações sobre a “polêmica” do plebiscito

Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido,
esse grito contido

esse samba no escuro


Surpreendente ainda é a capacidade reducionista do discurso despolitizado e simplista. No cenário nacional uma pauta se torna central: a reforma política. Seja pelos anseios de ver a corrupção que assola a política nacional reduzida, seja pela visível crise de legitimidade de um modelo de democracia que ainda espasma. Umbilicalmente ligada a essa discussão está o debate sobre os caminhos e a cara de uma democracia ainda pueril, ainda com cicatrizes e feridas das torturas, censuras e ausência de participação de um passado autoritário, que nesse momento se manifesta na discussão sobre plebiscito e referendo, e, se toda essa efervescência política continuar, deve ter sua metassíntese em um ponto mais estrutural.
Ora, claro que com um passado como o do Brasil, para um povo que teve sua voz silenciada desde o momento de sua constituição, deve parecer às vozes historicamente silenciadas participar da decisão política do país, no entanto, a vontade de decidir a direção do leme da política nacional de forma coletiva fez multidões ir às ruas e gritar alto todos aqueles gritos contidos que fazia tremer as bases do país. Não se engane, em meio a todas as bandeiras levantadas pelos movimentos das ruas estava o de participação do povo na política, de contestação de um modelo que segrega e aliena.
Apesar disso, há um setor pequeno na sociedade brasileira - aquele acostumado com gordas refeições, com um consumo desnecessário e feliz em ceder o seu poder decisório àquele número que bienalmente digita naquela urnazinha branca que faz um barulho engraçado - que está confundindo o momento político atual com uma ida a um shopping para saciar as suas vontades consumistas, por isso tem a limitada posição de que: “plebiscito: você manda fazer a roupa sem saber se vai ficar boa; referendo: você vê a roupa pronta e só compra se gostar”.
Sem muito esforço qualquer um consegue entender como é bizarra essa simplificação, no entanto, vamos, por brevíssimos instantes, toma-la como uma sagaz e didática analogia. Nesse remota hipótese, um plebiscito estaria mais como ir a um grande galpão em que seria feita uma roupa que não vestiria somente a você, mas todo o país, então, de pronto já vemos um furo nessa “brilhante” análise política. Não se trata de uma encomenda para um cidadão-consumidor. Nesse galpão não existirá constureirxs que você vai deixar construir a roupa de qualquer forma, não, você próprio vai pegar os tecidos, as linhas, as agulhas juntamente com o restante do país e costurar cada pedacinho dessa “roupa”, discutindo qual a melhor técnica, o melhor tecido e melhor linha. Claro que, também no plebiscito, essas linhas e tecidos já estarão minimamente estabelecidos, porque, até mesmo esse tipo de procedimento em que a participação do povo na deliberação se dá mais diretamente também passa pela mediação da democracia representativa.
No caso do referendo, de forma alguma você escolheria a roupa que iria comprar. O que ocorreria, ainda usando essa bizarra analogia, seria o seguinte: alguém já teria escolhido a roupa que seria oferecida ao povo, que já tem sua própria veste amarelada, esburacada, esfarrapada. Teríamos a opção de manter uma roupa que não cumpre sua função mais básica, ou de vestir a roupa oferecida por aqueles costureiros que cansamos de dizer que não nos representa.
De modo mais claro, com o referendo o legislativo apenas consulta o país sobre uma decisão já tomada por ele, já o povo decide se aceita ou não um projeto já definido pelos representantes. Com o plebiscito, a decisão é montada pelo povo. De certo modo, o modelo de democracia representativa ainda influi no procedimento do plebiscito uma vez que os termos do projeto são estabelecidos pelo legislativo, portanto, a supremacia popular, mesmo nesse procedimento, não é ampla, no entanto, os representantes ficam submetidos à decisão tomada pelo povo. Já vejo poucas vozes se erguendo: “Oxi! E é ditadura da maioria?”. De modo algum, a decisão tomada, mesmo dessa maneira, ainda poderia ser revista pelo judiciário se descumprisse normas estabelecidas na Constituição Federal.
Vê-se que o debate não é tão simples como se vende. Está em discussão também o nível de participação que o povo terá na decisão sobre a reforma política. Claro que ambos os procedimentos traz riscos para o país, próprios de sociedades históricas e democráticas. Óbvio que esse perigo é maior em um país que vive o império dos latifúndios midiáticos, uma uniformização das vozes e ideias que conseguem chegar às casas da população brasileira, isso é fato. No entanto, não há como negar que é o plebiscito o procedimento previsto no texto constitucional de hoje que possibilita maior discussão por parte de toda a população do país sobre determinado tema, e permite maior intervenção popular no processo decisório, portanto, nos meios institucionais é esse procedimento que garante a reverberação das vozes e gritos do povo na estrutura formal do Estado. O referendo, por outro lado, é mera caricatura de participação popular no processo deliberativo.
Agora se discute o quão forte, o quão potente serão os braços do povo para garantir que a política do país sigam ventos mais à esquerda. Por isso, é momento de manter-se em marcha, em luta, ocupando cada rua, cada beco, cada periferia para que consigamos fazer a estrutura de um país marcado por autoritarismo, por exploração, por exclusão de uma classe do processo decisório, trema até ruir.